Como Kiko Loureiro chegou ao Megadeth? ‘Sempre fui mais organizado para treinar’, diz guitarrista brasileiro

1 de novembro de 2017 - 97 visualizações

Desde 2015, quando Kiko Loureiro entrou para o Megadeth, há um argumento a mais para discutir se virar músico de rock é uma boa ideia. Para cada pessoa que disser que um roqueiro brasileiro nunca disputará de igual para igual com outro de um país com mais tradição no gênero, alguém pode fazer a seguinte pergunta:

Mas e o Kiko?

Antes de sonhar em tocar no Megadeth, o pequeno Kiko chegava em casa do colégio e fazia algo diferente dos amigos empolgados com a guitarra. Ele pegava o modelo de grade de horários da escola, com as matérias divididas em tempos certinhos, e usava para estudar sozinho o instrumento. Coisa de nerd? Pode ser, mas funcionou.

Aos 45 anos, Kiko volta ao país natal para tocar com o Megadeth, banda norte-americana que está entre as maiores do heavy metal. Os shows são em São Paulo na terça-feira (31) e no Rio na quarta-feira (1). Veja serviço abaixo.

Entre as rigorosas lições próprias da adolescência e a entrada para o Megadeth, Kiko tocou por mais de vinte anos no Angra, onde fez a fama na guitarra. E chegou com moral na banda dos EUA. Participou de três composições do disco “Dystopia” (2016), que rendeu um Grammy e esta longa turnê.

Como ele chegou lá? Ao G1, Kiko defende duas ideias:

O talento é superestimado; o lance é sentar na cadeira e treinar.

Ao mesmo tempo, não adianta tocar 10 horas por dia sem uma técnica de estudo.

G1 – Essa já é a segunda vez que toca com o Megadeth no Brasil. Sente que a banda aumentou a conexão com fãs brasileiros pela sua presença?

Kiko Loureiro – Difícil falar por mim. Já fui em shows como fã e sei que a conexão sempre foi forte. Comigo, por ser brasileiro, acho que teve super aceitação – e também de vários países da América Latina. Tem um lance legal de empatia, orgulho, patriotismo, de incentivar os outros músicos.

G1 – Eu ia perguntar isso. Muita gente deve achar que é difícil um brasileiro no mesmo nível dos caras de lá, onde a vida do músico de rock pode ser mais fácil. Mas aí podem perguntar: e o Kiko?

Kiko Loureiro – Quero muito que role isso. Porque sou um cara como qualquer outro. Eu treinava guitarra quando moleque no final dos anos 80, quando a gente não tinha nem instrumento decente no Brasil. Não tinha internet, quase nada de songbook ou videoaula. Era o amigo rico que ia pros EUA, trazia alguma coisa e copiava, emprestava.

Não tinha informação, mas tinha vontade, e a gente dava um jeito de se organizar do jeito que achava que devia.

Fora do rock, a gente não pode esquecer os inúmeros músicos fantásticos da música brasileira. Villa-Lobos, Tom Jobim, Yamandu Costa, Hamilton de Holanda. O que teve pouco é no rock, além de Sepultura. Tem alguns exemplos, mas não são muitos.

G1 – E aí o Dave Mustaine fala que ficou ‘intimidado’ com você. Acha que incentiva os outros?

Kiko Loureiro – Com certeza. Porque eu sou um cara que tive uma carreira no Brasil. O grande lance é estudar pegando um tempo para evoluir e levar a sério. Será que quando eu digo que quero ter uma carreira de músico, estou lidando como um emprego, em que eu chego às 8h da manhã e fico até as 18h, focado? Será que as pessoas fazem isso? Talvez não. E que sirva de incentivo. E não é fácil. Não é sorte. É batalha todo dia.

G1 – Quando você começou a tocar, precisava desse incentivo? Tinha medo de seguir a carreira?

Kiko Loureiro – Tinha receio, sim. Pensava: “Será que essa é a profissão mesmo?” Estava na fase de escolher uma coisa para a vida inteira. Fazia faculdade de Biologia na USP e pensava: “Vou largar a faculdade para ser músico?” Ainda era pós-adolescente, entrando na vida.

G1 – Vi vídeos de um curso seu e você disse que nunca achou que tivesse talento, que era mais questão de estudar.

Kiko Loureiro: Esse negócio de talento é superestimado. E o trabalho duro é subestimado.
Você tem que estudar certinho todo dia. Você vai viver aquilo porque é o que mais gosta. O tempo inteiro você vai estar com a cabeça na música. Ter o talento é a cereja do bolo. Na verdade, é você ter o talento de sentar na cadeira e ficar ali treinando.

G1 – Você não achou que tivesse um talento especial?

Kiko Loureiro – Não, porque eu tinha outros amigos que tocavam muito também. Tocavam bem, e eu ouvia os caras tocando e pensava: “Vou tocar mais”. O talento é mais essa força de achar que consegue melhorar se treinar. E saber quais são as técnicas para treinar direito, para utilizar no tempo certo e atingir o resultado.

G1 – E como você entendeu isso?

Kiko Loureiro – Desde sempre eu ficava preocupado com o jeito de treinar. Eu era mais organizado nessa questão do que a maioria dos caras perto de mim. Eu montava minha própria disciplina de estudo. Meus pais eram disciplinados em termos de horário. Percebi era que no colégio você já sabia as aulas que ia ter na semana. Então comecei a dividir meu treino como se fosse isso.

Eu chegava da aula e dividia meus dias com os assuntos de música que tinham que ser feitos. Assim conseguia estudar mais as coisas. Senti uma melhora e fui aprimorando.
Tenho um curso de guitarra que vai contra essa coisa de treinar 10 horas por dia sem método. Você obviamente vai ser focado na música o tempo inteiro, porque vai ser sua vida. Mas não é contando horas. O treino, se você fizer direito, dá uma ou duas horas por dia a parte técnica. Você tem que saber corrigir erro, perceber o que está ruim, tirar certos vícios. É um resultado mais rápido do que se tocar brincando.

G1 – Mas não é importante a parte de tocar ‘brincando’?

Kiko Loureiro – Não tenho nada contra. A parte lúdica é isso mesmo. Mas e a parte técnica para melhorar? Senão você vai sempre tocar a mesma coisa errada. Isso em qualquer área. Um corredor tem um relógio marcando tudo. E o músico não tem isso. Ele não sabe organizar o tempo para ver quanto evoluiu naquela semana, o que vai tocar na semana seguinte, qual é a agenda do mês. Se levar a sério, o talento desperta.

G1 – Uma curiosidade entre seus vídeos é quando você mostra a guitarrista prodígio japonesa. Você a conheceu?

Kiko Loureiro – Ela tem 13 anos, e tem vídeos com 10, 11. Quando fui ao Japão, falei com o pai e ela. Não tem como a pessoa chegar nesse nível se não tiver um nível de estudo muito eficaz. Ela treina duas horas por dia. Porque vai para a escola, é uma menina de 13 anos.
Basicamente ela faz o que eu costumo recomendar: é não ficar zoando.

Ela pode até tocar mais, mas aquelas duas horas que foca é que levam onde ela quer chegar.

G1 – O Angra está preparando um novo disco. Você vai participar de alguma forma?

Kiko Loureiro – Mantenho contato com os caras. Gravei um solo para o disco e consegui mandar. Mas tem o Megadeth e três filhos. Tive gêmeos há 9 meses. Quando volto para casa da turnê do Megadeth, que pelo sucesso do disco ficou recheada de shows, tenho que desconectar. Senão meus filhos não sabem nem minha cara mais. Assim como tento levar a sério a música, tento levar a sério a paternidade.

O Angra fica mais complicado. O que tenho feito, em paralelo, são os cursos online que eu consigo encaixar na estrada, em camarim, num tempo livre.

Coincidentemente, fiz um show na Suécia com o Megadeth no dia em que o Angra chegou lá. Então eu visitei os caras no estúdio. Mas eles nem tinha nada montado. Fiquei umas horas lá. Esse negócio de solo dá para fazer porque vai num esquema remoto.

G1 – Você tem ideia de como será o novo disco do Megadeth e se você vai ter ainda mais espaço do que as três coautorias no anterior?

Kiko Loureiro – Difícil falar. É coisa para o ano que vem. A única coisa que eu posso falar é que hoje conheço muito mais o Megadeth. Antes, tinha acabado de entrar na banda e fui para o estúdio.

Que eu vou dar ideia, vou. Se vão encaixar, se vão estar de acordo, nunca se sabe.

G1 – No começo você achou que seria só um ‘músico contratado’? Ficou supreso com o espaço que ganhou?

Kiko Loureiro – Surpreendeu sim. Não sabia como ia ser. O Dave foi muito aberto e acolhedor. É um esquema dos caras por 30 anos, num outro país, e foi super positivo. Não tenho o que reclamar. E agora tende a ser ainda mais positivo, essa relação fluir mais fácil. Não que eu tenha que compor, mas quero ajudar a ser um ótimo disco, que seja um clima bom na gravação, todo mundo tranquilo para render o máximo possível.

Megadeth em SP

Data: Terça-feira (31)
Horário: 22h
Local: Espaço das Américas – R. Tagipuru, 795 – Barra Funda
Preços: R$ 400 (inteira) a R$ 440
Ingressos: Eventim

Megadeth no Rio

Data: Quarta-feira (1)
Horário: 22h
Local: Vivo Rio – Av. Infante Dom Henrique, 85
Preços: R$ 220 (inteira) a R$ 440
Ingressos: Eventim


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